A Imagem Refletida e a Reflexão sobre a Forma
Jacob Klintowitz, 1988

A Ironia como Sistema
Carlos Scarinci, 1980

Desenhos
Gerd Bornheim

A imagem refletida e a Reflexão sobre a forma

As imagens de Henrique Leo Fuhro são reflexões multiplicadas em infinitos espelhos paralelos imaginários. A imagem imaginada reflete a imagem e o brilho é intenso e, de alguma maneira, parece que tem um foco que se desloca permanentemente diante de nossos olhos. Certamente estes reflexos multiplicados são os reflexos de uma realidade. Mas não estamos seguros quanto à esta realidade e nos parece que as imagens são mais fortes e potentes do que o estímulo real inicial.
Na verdade, não estamos diante do registro de um dado convencional do mundo. Aqui não se trata de mostrar o que já sabíamos, mas de tornar explícito uma imagem intuída. A intensidade do brilho destas imagens se dá na nossa percepção, pois nela, em sua natureza de Imagem pintada e desenhada não há senão um discreto tratamento. Observamos è a figuração de um conceito visual que se desvela.
Estas imagens de Fuhro são formalizações de uma ampla percepção. Nelas, estão contidas a idéia do homem contemporâneo e de sua possibilidade introspectiva. E o homem assinalado como um desenho a lápis, o homem registrado como grafite, com a máscara da persona. Este grafite está situado num universo cromático espantosamente
real e severo. E este contraste que torna explícita uma situação e nos demonstra a veracidade do estar no mundo. Uma cadeira, um ser estável, um desenho delicado e sugerido, uma organização cromática determinante. Relações entre o estar e o entorno. Os elementos do trabalho de Fuhro, uma das mais estupendas meditações sobre a questão do homem no mundo de hoje feitas na arte brasileira, são, como fulcro, os mesmos. O artista trabalha com o exterior e o interior, a objetividade social e a introspecção, o objeto e o reflexo. O homem mascarado é a imagem mais forte da nossa época. E o corredor da Fórmula Um e é o uniforme, a roupa esportiva do competidor, a roupa formal do executivo. Máscaras. Constantes gráficas na obra do artista.
Ë possível detectar alguma ironia neste trabalho. Isto depende, talvez, do ponto de vista do observador. Mas o que é impossível não detectar é o prazer da realização, o encanto do ato de fazer, a absoluta integração entre o homem que faz e o objeto criado, entre o olho e a mão que realiza e a forma que se cria diante de nós. O fazer e o feito estão de tal maneira integrados que a emoção torna o expectador, por sua vez, parte integrante deste momento perceptivo. O fazer, a obra, o público. Um circuito fechado e, também aqui, uma imagem que se multiplica e constrói a sua própria realidade.

Jacob Klintowitz, 1988

 

 

A Ironia como Sistema

"Copernico", gravura de Henrique Leo Fuhro, que o Museu de Arte do Rio Grande do Sul mostra como destaque neste mês de dezembro, é aparentemente muito simples, e o espectador apressado talvez nem se dê ao trabalho de uma tentativa de leitura compreensiva. Já que as artes plásticas, a gravura em particular, são só para se ver, possivelmente nem mereçam uma atenção mais detida, uma reflexão que procure sintonizar a proposta ou significação nelas contidas. No entanto, no caso da gravura de Fuhro, algo estranho acontece, pois torna-se difícil afastar-se da obra, sem a sensação de se ter sido atingido. E que tanto inteligência como sensibilidade se frustram se não se consegue apreender o seu sentido.

Na simplicidade de dois retângulos desiguais, um contendo um corpo de mulher parcialmente mostrado, outro, maior, com uma cabeça de homem em três quartos, quase de costas, mascarado, ocupando apenas pequena porção do espaço quadriculado e que sai ou entra, por assim dizer, do enquadramento, algo é, de fato, pronunciado de uma maneira tão econômica que parece faltar elos de ligação para completar a sentença, alguma coisa que desenvolva o discurso até a conclusão conseqüente e necessária. No entanto, o discurso gráfico de Fuhro está inteiro nestas só duas imagens, recusando-se a dizer mais do que já está dito e, na verdade, esta dito tudo.

Se se observa com detenção os retângulos e as figuras, pode-se apreender muito do trabalho meticuloso do artista, sua exigência de nitidez e acabamento, o corte sendo assumido como jogo de sinais que conjuga artifícios capazes de produzir imagens que assemelham realidades. As cores se superpõem e recortam, garantindo a' unidade da gravura, reforçando o caráter gráfico do sinal OU da linha produzidos pelo corte seguro do buril. Os enquadramentos mesmos, na disparidade de seus tamanhos, sugerem uma seqüência, como se fossem fotogramas de uma película cinematográfica, ou imagens de televisão numa sucessão congelada, ou quadros de uma historieta em quadrinhos separados acidentalmente dos outros que comporiam a narrativa. Tudo sugere um movimento que realmente não está na gravura, mas que produz um tempo que decorre estático, sustentando a relação entre as duas imagens.
Considerando apenas estes elementos, já se pode compreender que a "linguagem" que fala a gravura de Fuhro se apropria de componentes de diversas formas da comunicação de massas da atualidade. As próprias figuras saem quase diretamente, embora "traduzidas" para a linguagem da gravura, dos quadrinhos, da publicidade, da televisão, do cinema, compondo um conjunto já articulado, um sistema, que é o próprio "mundo" da atual sociedade de consumo. A figura da mulher não representa, pois, nenhuma mulher particular, real, mas um objeto, um padrão que pode comparecer no sonho de qualquer membro da "multidão solitária", ou seja; do homem médio que, não sendo mais do que uma ficção estatística, é cada um e ninguém. Por sua vez, a figura masculina mascarada do segundo enquadramento é um personagem, alguém cuja identidade é a própria máscara. E novamente qualquer um, é o agente, o usuário que realiza o consumo, ou melhor, que é realizado por ele. Os elementos assim se articulam num todo que se fecha sobre si mesmo, se faz sistema, elipticamente homólogo ao sistema da sociedade, a dimensão copernicana do mundo de hoje. A nota de ironia do título da gravura acaba fazendo parte da "mensagem", criando o distanciamento crítico que realiza tanto a concepção do mundo como a arte do gravador.
A gravura "Copérnico" de Henrique Leo Fuhro data de 1969. Seu exercício da gravura iniciou-se, entretanto, bem antes, em meados dos anos 50. As figuras femininas já eram um tema constante. Apareciam em evoluções acrobáticas, circenses, pedalando estranhas bicicletas. As figuras masculinas também executavam performances, ora solitárias, ora acompanhadas, utilizando instrumentos musicais ou fantásticas máquinas modernas. Pouco a pouco, afigura do mascarado, saído das histórias em quadrinhos, começa a freqüentar a obra do artista. Ao mesmo tempo, a linguagem gráfica de ênfase expressionista, associada a uma atmosfera mágica, senão surrealista pelo menos fantástica, vai-se tranqüilizando numa espécie de realismo) simplificado, típico de alguns dos melhores "comics" clássicos. Os temas ampliam-se, depois, abrangendo desempenhos esportivos, o futebol, o golfe, o tiro ao alvo, a motocicleta. A mulher e folhagens, OS insetos talvez. Ainda não os frutos. E todos estes elementos vão compondo uma espécie de vocabulário iconográfico, enquanto os enquadramentos que os isolam ou justapõem produzem urna gramática que aproveita a "linguagem" da comunicação de massas, mas a fragmenta. A partir dos anos 70, as imagens desdobram-se em sombras ou "fantasmas" televisionais, que enfatizam seu caráter com unicacional. Um pouco depois, Fuhro dedica-se ao desenho), depurando, ainda mais, sua linguagem gráfica. As folhagens e os insetos comparecem ao lado da figura feminina provocante: objetos e consumo sempre. A eles vão juntar-se os frutos, nacionais diga-se, reforçando a metáfora consumo-consumido). Nos desenhos, tarjas de cor reticulam o fundo, espécie de megarretículas foto-cinematográficas ou de televisão, diversificando e enriquecendo os elementos desta retórica gráfica. Assim, na medida em que se depura e enriquece, a gravura e o desenho) de Fuhro tornam-se mais abrangentes do homem e do) mundo atual, sua vontade de potência e seus objetos, seu desejo de consumo e o seu consumar-se. De tudo, resta uma visão crítica das coisas, que não sendo negativa, pois as aceita como são apenas, sutilmente, ironiza.

Carlos Scarinci - 1980


Desenhos
"Digamos que os trabalhos de Fuhro se apóiam numa espécie de base institucional - a instituição das coisas que somos levados a viver. Porque nosso mundo se transforma, e Fuhro é dos poucos que realmente se apercebem disso em toda a extensão da palavra. Sem dúvida, é fácil vislumbrar na obra um certo lirismo - ainda que a figura dos melancólicos músicos tenha, ao menos provisoriamente, desaparecido -, um lirismo meio travestido, talvez mais aparente que real, talvez vestígio saudoso de um mundo soçobrado. Pois, com toda evidência, o artista tem uma alma, e o seu drama é humano de ponta a ponta. E é desse mirante assentado no humano que se descortina uma realidade reduzida toda inteira à condição de objeto: artefatos, coisas-objetos, natureza-objeto, homens-objeto, mulheres-objeto. 
São dois os aspectos que mais me 'agridem' nos trabalhos de Fuhro. O primeiro é essa degradação de todas as coisas, o mundo feito um supermercado em que tudo espera seu consumidor preciso. Mesmo, e sobretudo, a sensualidade, que irrompe nestes últimos trabalhos com uma força nova e que configura o elemento erótico em forma de clichês de propaganda despersonalizada. O sentido do humano se deixa medir pela máscara da civilização impessoal. E, em segundo lugar, tudo se mostra separado, isolado como se o mistério do encontro devesse permanecer entregue ao enigmático cálculo de um acaso gratuito e sempre impossível. Cada 'objeto' pode desdobrar-se numa repetição inesgotável e sem nuanças, todos eles clausurados na suficiência de sua forma perfeita: o outro, a relação, a rigor não chega a esboçar-se, e o jogo de harmonia simétrica em que se oferece o conjunto não vai além de uma desculpa. 
Mas a palavra que talvez melhor identifique o despojado mundo de Fuhro seja esta: imagem. Não mais a imagem designativa de uma realidade que a transcende e à qual permanece referida, como 'membranas arrancadas da pele das coisas', e sim a imagem que se dá como fim em si própria, pele autônoma que já não diz nada além dela mesma. Não diz nada e diz tudo: diz do mundo restrito à sua periferia. O mérito de Fuhro está todo no vigor sem concessões, na mestria sem titubeios, no exagero que simplifica para fazer ver, na maturidade que deve ser resumida numa palavra: estilo."

Gerd A. Bornheim 

BORNHEIM, Gerd A. In: Catálogo Desenhos /obra recente. Porto Alegre : Galeria do IAB, 1976. 

 
    

 


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