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"Como se moesse ferro, coletânea de contos do porto-alegrense Altair Martins, é sua estréia em livro individual e mostra que existe novidade boa na literatura gaúcha. Na apresentação, o professor e crítico gaúcho Sérgio Luiz Gonzaga referiu que poucas vezes uma estréia se mostra tão alvissareira e que a linguagem de Martins – professor de literatura na vida real e vencedor de dois prêmios Guimarães Rosa, da Radio France Internationale – tem força. Alatir tem muito o que dizer e o expressa com originalidade, densidade, técnica e vigor."
in Jornal do Comércio, fevereiro de 2000.
"Um amigo me mandou um livro: Como se moesse ferro. O amigo me diz que o autor tem apenas 25 anos e, em Porto Alegre, é considerado a nova revelação da literatura brasileira.
Há grandes achados em seu livro (a começar pelo título), e basta ler suas melhores linhas para entender que não lhe falta um talento promissor [...] Seus contos falam da rotina dos casais, de vidas pobres e infelizes a dois, do desenlace violento de cotidianos arrastados.
[...] Há idéias engenhosas, como quando as sombras do homem e da mulher trocam de corpos em "A hora".
in Folha de S. Paulo, abril de 2000.
"Vez por outra, o narrador é atacado por uma incontrolável ânsia. Pelos dois lados do crânio, as musas imploram pela simetria e contra a sutileza, arruinando, ainda que por leves arranhaduras, histórias como "Convite para uma vida secreta" e "Chefe de família". Mas ainda ali persiste o inegável pensador de maquinar palavras, desenhando quadros de sentidos. [...] A língua impressa de Altair Martins se alimenta, com primor, da energia linfática das metáforas."
in Zero Hora, fevereiro 2000.
"Este autor consegue aquilo que almeja toda a literatura: tornar estranho o cotidiano, raro o que é vulgar, forte o que é pálido, permanente o efêmero. Este autor, que extrai do nada os motivos de suas narrativas, transformando-as em inquietantes exemplos da fragilidade humana, este autor tem desde já assegurado o seu lugar na história cultural de nosso País."
Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor.
Uma escrita limítrofe entre a prosa e a poesia,
o realismo e o fantástico
Um convite à participação dos teatros criados
pelo gaúcho Altair Martins
A última década do século XX foi particularmente fértil no terreno do conto. Até então, os anos 70 mantinham a primazia nessa área, revelando nomes que, em pouco tempo, se tornariam mestres na arte da história curta, disseminando discípulos de toda espécie país afora. No anos 90, o número de publicações de autores estreantes simplesmente dobrou em relação aos anos 70, e ao fator quantidade vieram somar-se outros dois: qualidade e diversidade.
João Alexandre Barbosa, um de nossos mais argutos críticos literários, chegou a confessar sua surpresa não só com a imensa variedade como também com o alto nível dessa produção, ao comentar a antologia de contos da chamada "geração 90", organizada por Nelson de Oliveira. Antologia da qual participava, com méritos, o gaúcho Altair Martins.
O recém-lançado "Se choverem pássaros", terceiro livro do autor, confirma a constatação de João Alexandre Barbosa. Embora alternando momentos de apurada técnica com uma ou outra escorregada no lirismo de gosto duvidoso, Altair vem se firmando como um dos bons nomes no variado elenco de contistas da ficção brasileira atual.
O fantástico: uma das fortes tendências da narrativa hoje
Neste seu novo livro, confirma-se a opção por uma escrita limítrofe, situada, por um lado, entre a prosa e a poesia e, por outro, entre um relato de cunho realista e incursões pelo fantástico. Fantástico, diga-se de passagem, que tem se revelado uma das fortes tendências da narrativa praticada hoje no país, meio na contramão de nossa forte herança realista.
Os contos do livro não se restringem a um único cenário, transitando entre o caos urbano de Porto Alegre - como em "Ira das mães", história passada em meio ao trânsito infernal de uma sexta-feira, final da tarde - e o ambiente rural ou de pequenas cidades do interior, desenhados aqui não pelo que podem oferecer de idílio mas, pelo contrário, como pano de fundo para conflituosas relações afetivas.
Seja na cidade grande, seja no interior, no campo ou, ainda, numa penitenciária - cenário do conto que dá título ao livro -, Altair Martins trabalha suas histórias de forma tal que se pressente, desde as primeiras frases, a intenção de criar para o leitor toda uma atmosfera onírica. Dessa atmosfera resulta uma série de situações ambíguas, provocando sensações que se dividem entre o enlevo e o estranhamento.
Quase sempre o autor é bem sucedido, mas vez ou outra pega um pouco pesado e o que, a princípio, parecia ser a tentativa de alcançar um lirismo pungente, acaba desaguando em imagens que beiram o sentimentalismo. O mesmo excesso pode ser verificado em algumas tiradas metalingüísticas, explícitas demais para alcançar o efeito supostamente pretendido pelo autor, e num ou noutro comentário de fundo "filosofante", dispensáveis numa narrativa que, na maior parte do tempo, tem como ponto alto justamente a sutileza.
Bela história sobre o varal de uma vizinha
Nenhum desses problemas aparece naquele que é talvez o melhor conto do livro: "Teatro de varais", cuja primeira frase, antológica, merece registro - "Esta é uma história comigo dentro". Frase que é retomada no decorrer do relato, reelaborada de forma precisa, dando sempre uma reviravolta no enredo conforme vai se alterando o foco narrativo. A história de um homem apaixonado pela vizinha e que vai criando toda uma biografia da amada a partir dos vestidos que vê estendidos em seu varal, à tarde, é narrada com extrema delicadeza, criando um sofisticado jogo de encenação. Jogo de que participam não apenas o inusitado voyeur de varais e a dona dos mesmos, mas ainda um outro vizinho, também ele astuto leitor de sinais.
E nós, leitores, acabamos participando do teatro, não só deste como de outros, convidados que somos a cada conto que se inicia. E se, às vezes, o autor nos tira o sagrado direito da co-autoria, explicando o que deveria permanecer subentendido, é certo que o livro, como um todo, permanece de pé. Quem sabe porque tenha, como ponto forte, uma escrita inteligente e sofisticada, a meio caminho entre o sonho e a vigília, buscando na poesia as estratégias para condução de seus pequenos espetáculos.
FLÁVIO CARNEIRO, escritor e professor de literatura da Uerj
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